Por Renata Piazzon
Em Londres, na semana passada, durante uma das principais datas dedicadas ao debate climático no mundo, um evento sobre clima extremo precisou ser cancelado justamente por conta do clima extremo. A ironia resume o momento em que vivemos: os impactos da mudança do clima deixaram de ser um tema das conferências para se tornarem uma restrição concreta ao funcionamento da economia.
Maio de 2026 foi o segundo mais quente já registrado no planeta, segundo o serviço europeu Copernicus: 1,42°C acima da média pré-industrial, atrás apenas de maio de 2024. É o tipo de manchete que se repete com tanta frequência que já não assusta. E é esse o problema: quando o recorde vira rotina, a tendência é tratá-lo como notícia ambiental ou tragédia distante, pertencente aos ursos polares e às próximas gerações. Mas o calor recorde deixou de ser futuro e virou custo presente.
Vale começar por quem orienta para onde vai o dinheiro do mundo. No Relatório de Riscos Globais de 2026, do Fórum Econômico Mundial, os eventos climáticos extremos aparecem pelo terceiro ano seguido como o maior risco global de longo prazo. Cinco dos dez maiores riscos da próxima década são ambientais, incluindo perda de biodiversidade, colapso de ecossistemas e mudanças críticas nos sistemas da Terra. Não é uma agenda verde. É um inventário de risco econômico elaborado por quem precisa proteger capital.
Há, porém, um detalhe revelador no mesmo relatório. No horizonte de dois anos, o clima extremo caiu da segunda para a quarta posição, atrás dos conflitos geopolíticos e da desinformação. Sabemos que é o maior risco estrutural da década, mas ele perde espaço para as urgências do trimestre. Essa miopia tem nome na contabilidade ambiental: tratamos serviços ecossistêmicos e externalidades como variáveis exógenas, fora do modelo e, portanto, fora do preço.
A economia linear sempre operou assim. Carbono, biodiversidade, água, regulação climática, polinização, fertilidade do solo e estabilidade dos ciclos naturais sustentam a produção, mas raramente aparecem nos balanços. A natureza entra como premissa silenciosa: gratuita, abundante e disponível. O problema é que aquilo que não entra no sistema de preços tende a ser desperdiçado. E aquilo que não tem valor econômico acaba sendo tratado como se não tivesse valor algum.
A fatura desse “de graça” deixou de ser invisível. A PwC estima que 55% do PIB global, cerca de US$ 58 trilhões, permanece moderada ou altamente exposto ao risco de perda da natureza. Mais da metade do valor de mercado das empresas listadas nas principais bolsas do mundo está nessa situação. Não é externalidade de ninguém. É custo que alguém paga.
No Brasil, sabemos exatamente quem paga. Em 2024, o País registrou dez eventos climáticos extremos, três deles sem precedentes: as enchentes no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia e a onda de calor no Centro-Oeste. As cheias gaúchas se tornaram o pior desastre climático da história do País, com perdas próximas de R$ 8,5 bilhões apenas na agricultura. A seca e as enchentes contribuíram para a queda do PIB agropecuário no ano. E o resultado apareceu onde todo brasileiro sente primeiro: no preço da comida.
Isso não é uma coincidência brasileira. O que antes parecia uma curiosidade acadêmica já entrou no vocabulário dos bancos centrais: climateflation, ou a inflação gerada pelos impactos físicos da mudança do clima. Estudo conduzido por pesquisadores do Banco Central Europeu e de institutos de clima estima que o aquecimento global pode adicionar até três pontos porcentuais à inflação anual de alimentos e mais de um ponto porcentual à inflação cheia até 2035. O próprio BCE calculou que uma onda de calor na Europa acrescentou até 0,7 ponto porcentual aos preços de alimentos frescos um ano depois. Café e cacau, pressionados pelo clima extremo, subiram, respectivamente, 103% e 163% em doze meses. Quando o banqueiro central admite que sua meta de inflação fica mais difícil de ser cumprida por causa do clima, a fronteira entre política ambiental e política monetária desaparece.
É aqui que o enquadramento importa. O clima extremo não é apenas risco operacional, a chuva que interrompe a fábrica ou a seca que esvazia a hidrelétrica. É risco de mercado, porque altera preços, inflação e balança comercial. É risco de crédito, porque encarece o capital de quem opera em setores expostos. É risco fiscal, porque o desastre vira despesa pública de emergência. Tratar tudo isso como “questão ambiental” é subestimar o tamanho da fatura.
Reconhecer essa questão não significa ceder ao alarmismo. Significa abandonar uma das premissas mais caras da economia moderna: a de que a natureza é um insumo gratuito. Carbono, biodiversidade, água e serviços ecossistêmicos sustentam a atividade econômica tanto quanto infraestrutura, energia ou capital financeiro, mas continuam praticamente ausentes das decisões econômicas. Enquanto conservar não gerar valor e degradar continuar sendo barato, a economia seguirá premiando exatamente o comportamento que amplia seus próprios riscos.
Essa mudança de lógica representa também uma oportunidade histórica para o Brasil. Poucos países reúnem uma combinação comparável de floresta tropical, biodiversidade, água doce, capacidade agrícola e potencial para uma economia de baixo carbono. Se a economia global passar a reconhecer e remunerar esses ativos, deixaremos de competir apenas pelo que extraímos da natureza e passaremos a competir pelo que somos capazes de manter em pé.
A natureza sempre teve valor. O erro foi tratá-la como se não tivesse. Hoje, a conta dessa escolha aparece na inflação, nos seguros, nas finanças públicas e nas perspectivas de crescimento. Corrigir essa falha deixou de ser apenas uma agenda ambiental, é uma agenda econômica. E, para um país como o Brasil, talvez seja a maior oportunidade de competitividade deste século.


