OPINIÃO
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Restaurar a Mata Atlântica também é fazer política econômica

Renata Piazzon,
23.04.2026

Por Renata Piazzon

Com apenas 24% da sua cobertura original, a Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do planeta. Ao mesmo tempo, é o bioma brasileiro com maior área em restauração: 131,2 mil hectares, o equivalente a 64% de tudo o que está sendo recuperado no País, segundo o Observatório da Restauração. Esse contraste revela, simultaneamente, um passivo ambiental histórico e uma das maiores oportunidades de desenvolvimento sustentável para o Brasil.

Para compreender essa dualidade, é preciso reconhecer a complexidade do território. A Mata Atlântica não é uma floresta contínua, mas um mosaico que combina áreas naturais, zonas urbanas e regiões costeiras altamente dinâmicas. Ela se estende por 17 Estados brasileiros e abriga cerca de 70% da população do país. É também onde se concentram grandes centros urbanos, infraestrutura estratégica e boa parte da atividade econômica nacional.

Essa sobreposição de usos intensifica as pressões sobre o bioma. Nas últimas décadas, a expansão urbana e a conversão do uso do solo fragmentaram a floresta, elevaram os custos de conservação e tornaram a restauração um desafio ainda mais complexo. Ao mesmo tempo, a Mata Atlântica segue prestando serviços ambientais essenciais: garante segurança hídrica, regula o clima, protege encostas e sustenta uma biodiversidade única.

Diante desse cenário, a pergunta central não é apenas como conservar o que resta, mas como restaurar em escala e, sobretudo, como transformar a restauração em um setor econômico, capaz de gerar emprego, renda e desenvolvimento territorial.

Nos últimos anos, acumulamos evidências de que essa transformação é possível. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais mostra que restaurar áreas degradadas pode ser mais vantajoso economicamente do que manter atividades tradicionais, como a pecuária extensiva. Em um dos cenários analisados, a renda anual de áreas convertidas em pastagem gira em torno de US$280 mil. Já a restauração, combinada à geração de créditos de carbono, pode alcançar US$1 milhão por ano — ou até US$3,7 milhões em áreas prioritárias.

Esses dados ajudam a reposicionar o debate. A restauração deixa de ser vista como custo e passa a ser entendida como investimento. Esse potencial se torna ainda mais evidente quando observamos sistemas produtivos que integram conservação e geração de renda.

No sul da Bahia, por exemplo, a produção de cacau em sistemas agroflorestais conhecidos como cabruca mostra que é possível alinhar biodiversidade, produtividade e inclusão econômica. Um estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 2023, comprovou que as cabrucas coexistem com mais de 250 espécies de plantas e animais, várias delas ameaçadas de extinção, servindo também como corredores ecológicos. Ao combinar árvores nativas com culturas agrícolas, esses sistemas aumentam a resiliência climática, capturam carbono e diversificam a renda dos produtores.

O País dispõe de um dos marcos legais mais avançados do mundo em conservação florestal. O Código Florestal, a Lei da Mata Atlântica e instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural e os Programas de Regularização Ambiental oferecem uma base sólida para projetos de restauração. Ainda assim, a implementação dessas políticas permanece aquém do necessário.

Entre o que está previsto e o que acontece no território, há brechas significativas, marcadas por insegurança jurídica, falta de incentivos econômicos e limitações na capacidade de execução. Além disso, cerca de 80% da vegetação remanescente da Mata Atlântica está em propriedades privadas. Isso torna indispensável o desenho de mecanismos que engajem produtores rurais, conciliando conservação e viabilidade econômica. Sem isso, a restauração dificilmente avançará na velocidade e na escala necessárias.

Outro desafio é o financiamento. A restauração florestal exige capital de longo prazo, com estruturas adaptadas ao ciclo da natureza, algo que ainda não está plenamente disponível no sistema financeiro tradicional. Iniciativas recentes têm buscado enfrentar esse gargalo, combinando recursos públicos, privados e filantrópicos para destravar investimentos.

Mas talvez o maior desafio seja narrativo. Por muito tempo, a agenda ambiental foi tratada como um tema à parte, muitas vezes associada a custos, restrições ou disputas ideológicas. Precisamos superar essa visão. Restaurar a Mata Atlântica não é apenas uma agenda ambiental. É uma estratégia de desenvolvimento para o País. Isso implica reconhecer as florestas como ativos econômicos. Significa valorizar serviços ecossistêmicos, estruturar mercados de carbono com integridade, ampliar programas de pagamento por serviços ambientais e fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade.

Também exige uma atuação coordenada entre diferentes atores. Nenhum setor, isoladamente, será capaz de enfrentar esse desafio. É necessário articular políticas públicas, ciência, setor privado, sociedade civil e filantropia em torno de objetivos comuns. Experiências como o MapBiomas e o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica mostram que essa colaboração é possível e fundamental.

Transformar esse potencial em realidade é o desafio da nossa geração. E também uma das maiores oportunidades para reposicionar o Brasil como protagonista de um novo modelo de desenvolvimento, um modelo em que restaurar não é apenas recuperar o passado, mas construir o futuro.

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