OPINIÃO
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Com menos espaço no discurso, clima ganha peso na economia

Renata Piazzon,
22.10.2026

Para um governador, adaptação climática significa evitar perdas humanas e econômicas com eventos extremos; para a indústria, eletricidade limpa e confiável pode ser vantagem competitiva

Voltei da Semana do Clima de Nova York, que aconteceu no fim de setembro, mais otimista do que cheguei. Em meio à reação política à agenda ESG nos Estados Unidos e a um cenário geopolítico cada vez mais instável, encontrei um ambiente menos propenso a anunciar compromissos climáticos, porém mais concentrado em viabilizar investimentos, discutir demanda de energia impulsionada pela inteligência artificial, infraestrutura e competitividade. O clima parece perder espaço como narrativa, mas surge cada vez mais conectado às decisões econômicas.

Poucos dias depois, a notícia de que a Starbucks revisaria metas ambientais trouxe um contraponto a essa percepção. A Starbucks, que fez da sustentabilidade parte de sua identidade corporativa, reduziu ou abandonou compromissos ligados ao consumo de água, resíduos e embalagens, enquanto revisa sua trajetória de emissões de carbono. O episódio merece atenção. Ele mostra que mostra que há recuos concretos e que metas voluntárias perdem credibilidade quando não resistem à pressão sobre custos.

O clima parece perder espaço como narrativa, mas surge cada vez mais conectado às decisões econômicas
O clima parece perder espaço como narrativa, mas surge cada vez mais conectado às decisões econômicas Foto: Yasin Akgul/AFP

Mas seria um erro tomar um caso como retrato de todo o setor privado. Há empresas que recuam de fato, outras que recalibram metas e outras que continuam investindo, mas reduzem deliberadamente sua comunicação sobre essas ações, por receio de críticas, pressões políticas ou acusações de greenwashing. A esse último fenômeno se deu o nome de greenhushing.

Um levantamento da Farient Advisors, divulgado pelo Financial Times no ano passado, indicou que, entre 50 grandes companhias americanas em valor de mercado, 71% mantinham seus compromissos climáticos, enquanto 20% haviam reduzido ou adiado suas metas e 8% ampliado.

No plano global, a Science Based Targets Initiative registrou crescimento de 40% no número de empresas com metas climáticas validadas em 2025, chegando a 9.764. Em janeiro de 2026, a organização alcançou a marca de 10 mil empresas.

A Ásia ganhou protagonismo nesse movimento, com crescimento de 53% no ano, acima das demais regiões. Os números não autorizam complacência, mas tampouco sustentam a tese de abandono generalizado.

O que parece estar chegando ao fim é uma etapa em que o anúncio dos compromissos era confundido com avanços concretos da transição. Agora, com a inteligência artificial ampliando a demanda por eletricidade, com a reorganização das cadeias globais e com a disputa por minerais críticos, a sustentabilidade entra na mesa de decisões por outras portas: segurança energética, produtividade, acesso a mercados e redução de riscos.

Para o Brasil, essa mudança pode ser decisiva. Temos uma combinação rara de capacidade de produzir alimentos, disponibilidade de água, matriz elétrica predominantemente renovável, biodiversidade, conhecimento tropical e recursos minerais relevantes para novas tecnologias.

Um ensaio recente do investidor Drew Crawford apresenta o País como uma oportunidade subestimada pelo capital internacional. Ele argumenta que essa combinação de ativos ganha valor econômico e geopolítico em um mundo preocupado com a segurança das cadeias de suprimentos.

Na mesma linha segue o editorial recente deste jornal, A potência ambiental que o Brasil pode ser, ao acrescentar a condição indispensável a essa visão: patrimônio natural não se transforma automaticamente em prosperidade. É necessário investir em ciência, inovação, instituições confiáveis e capacidade de escolher entre prioridades legítimas.

Iria além: a natureza não é apenas um estoque de recursos a explorar ou um patrimônio a proteger apesar do desenvolvimento. É parte da infraestrutura que torna o desenvolvimento possível. A regularidade das chuvas, a água disponível, os solos produtivos e a estabilidade dos ecossistemas sustentam a agricultura, a energia, a indústria e as cidades.

Isso ajuda a superar falsas oposições. Mitigação e adaptação disputam recursos escassos, mas nem sempre são alternativas. Proteger florestas e recuperar bacias hidrográficas pode reduzir emissões e, ao mesmo tempo, diminuir riscos de seca, enchentes e perdas agrícolas.

Intensificar a produção em áreas já abertas pode ampliar renda sem exigir novas fronteiras de desmatamento, desde que haja fiscalização, regularização fundiária e incentivos corretos. A competitividade de amanhã depende de preservar as condições ecológicas da produção de hoje.

É justamente quando essa agenda encontra uma oportunidade econômica que a política brasileira lhe impõe um teste difícil. A Presidência ainda será decidida no segundo turno, mas o próximo governo, seja qual for, terá de negociar com um Legislativo menos receptivo à linguagem ambiental tradicional. Ignorar essa realidade seria ingenuidade; concluir que o Brasil deve abandonar a ambição ambiental seria um erro ainda maior.

O caminho não é trocar princípios por conveniência eleitoral, mas construir convergências mais amplas em torno de problemas concretos. Para um produtor rural, proteger vegetação e rastrear a cadeia podem significar acesso a crédito, seguro e mercados.

Para um governador, adaptação climática significa evitar perdas humanas e econômicas com eventos extremos. Para a indústria, eletricidade limpa e confiável pode ser uma vantagem competitiva.

Para comunidades da Amazônia, bioeconomia só fará sentido se gerar renda, oportunidades e poder de decisão no território. Essa linguagem não elimina conflitos, mas aproxima a agenda ambiental das prioridades reais de quem investe, produz e governa.

Isso exige também reconhecer limites que não podem ser negociados em nome do pragmatismo. Segurança jurídica, direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, transparência, dados ambientais independentes e combate ao desmatamento ilegal não são obstáculos à economia: são condições de confiança para investimentos de longo prazo. Sem instituições capazes de proteger esses fundamentos, o suposto prêmio de nossos ativos naturais pode se converter em risco, conflito e destruição de valor.

Em Nova York, percebi uma transição do entusiasmo com metas para a disciplina da implementação. Depois das eleições brasileiras, essa percepção ganhou outra dimensão. Não basta convencer quem já concorda com a agenda climática.

Precisamos demonstrar, com resultados, que conservar a natureza pode aumentar produtividade, reduzir vulnerabilidades, gerar empregos e fortalecer a posição do Brasil no mundo. A próxima fase da sustentabilidade talvez tenha menos siglas e menos aplausos. Mas, se soubermos aproveitá-la, poderá ter mais economia real e mais futuro.