OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO
Show de Bad Bunny no Super Bowl; ao nomear todos os países do continente como parte da América, artista tensionou uma ideia histórica de pertencimento construída pela exclusão Foto: ISHIKA SAMANT

Clima, cultura e eleições: quem define o futuro do ‘nós’?

Não haverá transição ecológica, adaptação ou justiça climática sem mobilização social ampla; e não haverá mobilização sem pertencimento
Renata Piazzon,
19.02.2026

O Brasil entra em mais um ano eleitoral olhando para si mesmo com dificuldade. Os dados se acumulam, as pesquisas se sofisticam, as campanhas se profissionalizam, mas a sensação de desencontro permanece. Sabemos cada vez mais sobre o que divide o País e cada vez menos sobre o que ainda o conecta. Não por acaso, Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, ganhou ampla repercussão ao oferecer não promessas de unidade, mas um retrato incômodo de um país fragmentado por valores, percepções de mundo e afetos políticos profundamente distintos.

O diagnóstico é conhecido: o Brasil não é apenas desigual do ponto de vista econômico; é desigual na forma como interpreta a realidade, confia nas instituições e imagina o futuro. O que talvez esteja menos claro é que essa fragmentação não se resolve com mais técnica, mais dados ou mais segmentação. Ela se manifesta e se aprofunda no terreno da cultura, do pertencimento e das narrativas que definem quem faz parte do “nós”.

Esse ponto ajuda a entender por que gestos culturais têm impacto político tão intenso. No intervalo do Super Bowl, ao encerrar sua apresentação dizendo “somos todos América”, Bad Bunny não estava propondo um consenso ideológico nem um programa político. Estava fazendo algo mais básico e, talvez por isso, mais potente: redefinindo simbolicamente quem cabe dentro de uma identidade coletiva. Ao nomear todos os países do continente como parte da América, o artista tensionou uma ideia histórica de pertencimento construída pela exclusão.

O paralelo com o Brasil não é imediato e nem deve ser literal, mas ilumina um problema central da nossa vida pública: em um país tão diverso quanto desigual, a política tem tentado produzir unidade sem passar pela cultura. Campanhas eleitorais falam em “povo”, “família”, “trabalhador”, “Brasil”, como se esses termos fossem autoevidentes, quando na prática eles são disputados, vividos e sentidos de formas radicalmente distintas.

Nos últimos anos, a resposta dominante a essa complexidade tem sido a fragmentação estratégica: falar com públicos específicos, adaptar mensagens, explorar nichos. Essa lógica talvez seja eficiente para vencer eleições, mas insuficiente para sustentar projetos de país. O resultado é uma democracia funcionalmente ativa, mas culturalmente esgarçada.

A cultura precisa ser entendida também como infraestrutura política. Não como entretenimento, nem como ferramenta de persuasão rasa, mas como espaço onde se produzem sentido, reconhecimento e laços simbólicos. A política institucional pode decidir prioridades, alocar recursos e desenhar políticas públicas, mas é a cultura que define quais dessas políticas encontram ressonância social e quais permanecem tecnocráticas, distantes ou rejeitadas.

O Brasil oferece inúmeros exemplos disso. As formas mais duráveis de mobilização social no país raramente nasceram de consensos abstratos; emergiram de identidades compartilhadas, linguagens próprias, experiências comuns. Da religiosidade popular às torcidas organizadas, das festas regionais aos movimentos culturais periféricos, o engajamento acontece quando as pessoas se reconhecem na narrativa e não quando são apenas interpeladas por ela.

Em ano eleitoral, essa constatação ganha peso adicional. O que está em disputa não é apenas quem governará, mas qual ideia de Brasil será legitimada como projeto coletivo. Um país pensado a partir da homogeneização forçada? Ou um país capaz de articular diferenças sem apagá-las?

A agenda climática torna essa pergunta ainda mais urgente. Não haverá transição ecológica, adaptação ou justiça climática sem mobilização social ampla; e não haverá mobilização sem pertencimento. Dados científicos são indispensáveis, mas não suficientes. Políticas públicas importam, mas só prosperam quando encontram terreno cultural fértil. Como já se disse, não são apenas as políticas que moldam a cultura; é a cultura que define quais políticas sobrevivem.

Se há um terreno onde essa disputa pelo “nós” se tornará decisiva, é o da transição ecológica. A política climática, no Brasil, não é apenas um debate técnico sobre emissões, desmatamento ou matriz energética; é uma disputa sobre identidade nacional. Somos o país da floresta, da biodiversidade e da energia limpa? Ou o país da expansão ilimitada, do crescimento como destino incontornável?

A resposta não é neutra. Ela define prioridades orçamentárias, regulações ambientais, acordos internacionais e, sobretudo, a forma como diferentes grupos sociais se enxergam dentro do projeto de país. A transição climática exige infraestrutura física – energia renovável, adaptação urbana, agricultura resiliente –, mas também infraestrutura simbólica. Sem uma narrativa que integre produção, conservação e justiça social, o debate ambiental continuará sendo percebido por parte da população como agenda externa, elitista ou desconectada da vida real.

O mesmo vale para o agronegócio, frequentemente tratado apenas como estatística de PIB ou balança comercial. O agro brasileiro construiu, nas últimas décadas, não só cadeias produtivas globais, mas uma cultura própria: estética, linguagem, música, valores e um imaginário de prosperidade associado à terra, ao trabalho duro e à tradição. Do sertanejo universitário às feiras agropecuárias, das narrativas sobre “quem alimenta o Brasil” à ideia de empreendedorismo rural, consolidou-se uma identidade poderosa, que articula pertencimento, orgulho regional e visão de mundo.

Ignorar essa dimensão cultural é um erro estratégico e analítico. A transição ecológica que não dialogar com esse universo simbólico tende a ser percebida como ameaça, e não como oportunidade. O desafio, portanto, não é opor agro e clima, mas reconstruir a narrativa de um agro competitivo, inovador e regenerativo, capaz de integrar produtividade e responsabilidade ambiental dentro de um projeto nacional compartilhado.

É nesse ponto que cultura, clima e democracia se entrelaçam. A transição ecológica brasileira, seja na Amazônia, no Cerrado, nas periferias urbanas ou no semiárido, só será politicamente viável se for percebida como parte de um “nós” ampliado, e não como imposição de um grupo sobre outro.

Talvez o maior desafio das eleições que se aproximam seja justamente este: sair da obsessão por convencer e voltar a aprender a reconhecer. Reconhecer os múltiplos Brasis que coexistem, os afetos que organizam a vida social, as linguagens que produzem sentido e as identidades que estruturam tanto resistências quanto possibilidades de convergência.

O espelho que o País tem diante de si não é liso nem confortável. Ele reflete desigualdades, ressentimentos e projetos inconciliáveis. Mas é nele, e não em modelos importados ou atalhos tecnológicos, que reside a possibilidade de reconstruir um “nós” minimamente compartilhado.

Em tempos de fragmentação extrema, a cultura não oferece soluções fáceis. Ela oferece algo mais difícil e mais necessário: a chance de redefinir quem somos e, sobretudo, quem queremos ser diante da maior transição econômica, ecológica e política do nosso tempo.

Você pode gostar

Painéis de energia solar em São Paulo; expansão solar tem pressionado tarifas para baixo Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Em 2024, 91% dos novos projetos de energia renovável em escala comercial no mundo foram mais baratos do que alternativas fósseis
Marcha organizada por lideranças indígenas em Belém durante a COP. Foto: Wilton Junior/Estadão
Belém enfrentou desafios, mas demonstrou maturidade para sediar a conferência mais decisiva da década
A conferência em Belém também deve inaugurar uma nova governança climática, com o Sul Global assumindo a liderança
Após 3 décadas de negociações, o sistema multilateral do clima se tornou um labirinto de metas e compromissos não cumpridos; Belém simboliza a virada da COP de promessas para a de entregas